O pânico

 




O pânico
do pantano.
Das palavras perdidas.
Infinitas.
Infinitamente perdidas.
Que eu não te disse.
Porque não quiseste.

O principio

 





No principio
era o caos...
Os átomos tinham
as primeiras odes.
Mas faltou-lhes a
máquina de escrever.
Voltemos ao princípio...

Muros

 




Derrubo os muros
mas tropesso
nos tijolos.
E caio em mim.
...
Apenas um "até amanhã"
e um sorriso, fez da noite
de ontem um eterno
nascer do sol.
Hoje levantei-me
cedo.
Ainda é cedo.

Chocolat- No names




...(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
...Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)...


Álvaro de Campos

Hoje há em mim um outro

escrever que devolve o sonho.

Não partas agora que eu estou a chegar.

Só para estar contigo.

Para te mostrar o sonho. 

Para te ver sorrir. Como há muito não o fazias.

Olha, volta não vás embora. 

Eu faço-te rir. Conto-te histórias.

Leio-te Álvaro de Campos, 

ou "Desassossego" que tanto gostas.

Não partas. Vamos ver Fassbinder ou Visconti. 

Eu sei que gostas.

Não chores... Eu faço-te rir. Vá vem daí comigo. Vá dá-me a mão.

Vá vamos, senta aqui bandida. Diz-me a verdade, ou uma mentira.

Diz o que quiseres. Não faz mal. 

Vá vamos por aí.

Olha estou quase a chegar ... Espera não vás....



 





Sim é teatro.

É teatro a vida de cão que carregamos, e que nos roi infinitamente os ossos.

É teatro a máscara que se entranha na pele do “politicamente correcto”

Primeiro estranha-se depois entranha-se.

Bendita água suja do imperialismo, que nos inunda as entranhas.

Sim é teatro.

E se as árvores não morrem de pé, morrem queimadas.

É teatro.

E se fingo amar-te é teatro. E se não o fingir também é.

É teatro querer escrever poemas.

Sem ser poeta.

Ser poeta é teatro.

São as lágrimas que apagam as máscaras e fazem subir o pano.

São teatro.

É a gargalhada contida e o esgar de dôr da náusea existencial, é teatro.

É um querer incontido de quer pensar a peça. E pedir que começe a cena.

É teatro.

É a fuga constante dos relógios apressados.

E a noite chega. Estou só. Como nunca. Tiro a máscara. Acabou a peça.

Deixa-me ouvir o silêncio do teu aplauso.


Sem aparente razão
a noite veio mais
cedo.
As abelhas largaram 
as asas
e foram a pé.
Ficou no mel
A doce vertigem
de querer
mais.